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Mensagem do pároco › 02/06/2015

Isto é o Meu Corpo

SalvationIniciamos o mês de junho com a Solenidade de Corpus Christi e para bem refletir sobre tão grande Mistério, vou servir-me da primeira estrofe de um dos principais hinos eucarísticos da Igreja, o Adoro te devote, atribuído a Santo Tomás de Aquino (séc. XIII – mesmo século em que a solenidade foi instituída):

“Eu te adoro com afeto, Deus oculto/ Que te escondes nestas aparências. A ti submete-se o meu coração por inteiro/e desfalece ao te contemplar.”

A estrofe evoca o tipo de presença de Cristo nas aparências eucarísticas do pão e do vinho. Deus está realmente presente na Santíssima Eucaristia, porém, oculto. Como Moisés, que via uma chama de fogo a queimar, sem, contudo consumir-se (cf. Ex 3,1-3), na Eucaristia Deus Se faz presente, embora velado.

Se na Encarnação Deus Se humilhou descendo da sede real da glória ao seio da virgem Maria (cf. Fp 2,5ss), na Eucaristia, diariamente, desce até nós em Sua humildade na frágil aparência do pão!

A razão de permanecer oculto é o Seu desejo de ser procurado. No AT Ele prometeu: “Vocês vão me procurar e me achar, pois vão me procurar com todo o coração…” (Jr 29,12-14a). No NT, garantiu: “Peçam e vocês receberão; procurem e vocês acharão; batam, e a porta será aberta para vocês” (Mt 7,7).

A resposta de nosso coração ao convite do Senhor em procurá-Lo é a atitude de adoração. O canto, que começa dizendo: “Eu te adoro com afeto…”, prossegue: “A Ti submete-se o meu coração por inteiro…”.

Na Eucaristia não temos um simbolismo da presença de Cristo; o conteúdo da nossa fé é que o mesmo corpo histórico de Jesus, concebido pelo Espírito em Maria, morto, ressuscitado e glorificado, é o corpo eucarístico. Na hóstia temos a divindade e a humanidade de Cristo verdadeiramente presente.

Adoração é a percepção da grandeza, da beleza e da bondade de Deus e de Sua presença que nos tira o fôlego (cf. 1Cro 29,10-14). É uma espécie de naufrágio no oceano sem margens e sem fundo da majestade de Deus. A adoração é um gesto filial, amoroso, livre. É um olhar do coração ao Deus que nos vê e ama. Pode dispensar inclusive palavras… é um “hino de silêncio” (São Gregório Nazianzeno).

Mesmo que o exterior contenha sons de orações e canções, o interior de quem adora tende a silenciar, a calar, a se submeter à Presença de Deus (cf. Sl 95,6). O canto diz: “Eu te adoro com afeto” (Adoro te devote). Esse afeto é o fervor da alma acesa pelo amor de Deus, fruto da lembrança dos Seus benefícios em nossa vida. Afeto, portanto, é a disponibilidade total e amorosa em fazer a vontade de Deus.

Da adoração eucarística, pessoal ou comunitária – como é próprio de Corpus Christi: a celebração, a procissão e a exposição do Santíssimo Sacramento –, o nosso coração deve passar a outro nível de relacionamento com o Senhor, a contemplação. Não basta estar de joelhos diante do Cristo eucarístico, recitar orações, cânticos. Para mergulhar no oceano de graça que é a Presença eucarística o coração, como diz o canto, precisa desfalecer-se (cf. Sl 84).

No século XIII, a contemplação tinha grande significado, pois a comunhão eucarística do povo era um costume raro. Comungava-se praticamente somente na Páscoa. Assim, a ausência do contato eucarístico supria-se com a sua contemplação, sobretudo na elevação da hóstia no momento da consagração. Ver era como que receber, comungar, desfrutar do Mistério!

Para nós, no século XXI, que temos tão presente a comunhão em nossas celebrações, parece não ter sentido tal prática. Mas é exatamente o contrário. Por estarmos habituados com a Missa e a comunhão, corremos o risco de vivê-las “no automático”, sem reconhecer a presença e a santidade do Senhor entre nós.

Portanto, acorrer aos sacrários de nossas igrejas para a adoração e a contemplação deve ser um gesto concreto na vida de um católico, de alguém que conscientemente toma parte no sacrifício eucarístico, sobretudo aos domingos; deve ser uma extensão de seu amor à Eucaristia. Na adoração e contemplação interiorizamos o Mistério e nos deixamos afetar por Ele. Contemplar é olhar a Jesus e estabelecer um contato de coração a coração, é olhar para Ele e ser olhado por Ele. Ali esquecemos tudo, exceto Ele. Ali, como quem está exposto ao sol, somos “queimados” ou transformados Naquele que contemplamos, isto é, assimilamos em nós a mente e o coração de Cristo (cf. Fl 2,5; Gl 3,27), somos transfigurados na imagem do Seu glorioso rosto (2Cor 3,18), porque cada ser é aquilo que contempla.

Por fim, na contemplação eucarística, temos um meio privilegiado para a cura. Se Israel, contemplando a serpente de bronze suspensa na estaca, pôde desfrutar dessa bênção (cf. Nm 21,4-9), quanto mais podemos nós alcançar de Deus na adoração e contemplação tudo o que necessitamos para viver em plenitude a nossa vida e a nossa fé (cf. Jo 3,14-16)! É este Mistério que nossas comunidades são chamadas a viver no seu dia a dia e a testemunhar, de modo solene, pelas ruas de nossa paróquia, sobretudo na procissão de Corpus Christi, nossa profissão pública de fé na Presença real de Jesus na Santíssima Eucaristia.

 

Pe. Augusto César,
Pároco

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