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Mensagem do pároco › 05/04/2015

O que pode nos dar a Páscoa?

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A Páscoa é uma festa judaica, nação escolhida para revelar o nome de Deus às nações (cf. Gn 12,1-3). A ela foi prometida uma terra próspera para que instaurassem um reino de justiça e paz, o shalom: abundância de tudo para todos (cf. Gn 28,13-14). Mas por um mistério divino, esse povo dentro de outra nação. Acolhidos no próspero Egito em um tempo de fome, os israelitas se tornaram numerosos. Mais tarde, sentindo-se ameaçado, o faraó decidiu escravizá-los (cf. Ex 1,9-14).

A identidade de Israel se construiu entre dois extremos: a promessa do reino de abundância e a cruel escravidão, e Deus aguardou 420 anos para dar o passo estratégico na direção de seu propósito revelado em Abraão. E, então, do meio da sarça, chamou um líder libertador (cf. Ex 3,4-10).

Sua missão era clara: apelar ao Faraó a libertação dos hebreus (cf. Ex 4,21-23). Mas este endureceu e se recusou, pelo que Deus agiu para livrar o Seu povo, e assim, neste contexto de escravidão-libertação se estabeleceu a festa da Páscoa com seus ritos, de modo especial o sacrifício dos cordeiros (cf. Ex 12).

A páscoa judaica é, portanto, a celebração desta libertação, a PASSAGEM da escravidão à liberdade a fim de viver o shalom.
Séculos mais tarde Jesus de Nazaré, quando este mesmo povo novamente se viu oprimido por outra potência, levou a cabo as proféticas palavras do Batista a Seu respeito: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). E na última Páscoa celebrada com os Seus amigos, na condição paradoxal de libertador e cordeiro, cumpriu o propósito original da primeira aliança (cf. Mt 26,26-29; 1 Cor 5,7).

Já não temos mais a aliança de Deus com um povo, mas com a humanidade; não temos apenas a celebração em memória de uma libertação política, mas integral; já não há mais a festa baseada em sangue de animais, mas no sangue de uma Pessoa divina; nem temos mais uma celebração visando a constituição de uma nação, mas o estabelecimento eterno do Reino de Deus, o shalom, que é abundância de tudo para todos!

Na nova Páscoa temos vida plena e somos libertos do ladrão que rouba, mata e destrói (cf. Jo 10,10). Roubado é aquilo que lhe pertence, mas foi usurpado e não está em sua posse. Destruído é aquilo que mesmo em sua posse, está danificado e não pode ser desfrutado em plenitude. Morto é aquilo que lhe foi tirado e já não existe. Mas na Páscoa do Senhor fazemos memória da libertação definitiva, e o que é fazer memória senão atualizar esta dádiva ao cotidiano de nossa vida!?

A Páscoa celebra esta restituição que já se inicia nesta vida e se consumará na eternidade, porque a vitória de Deus já foi inaugurada e hoje alcança a sua vida. Na Páscoa há shalom para você e sua casa!

No rito anual da Páscoa temos um “link” que nos torna acessível realidades passadas relevantes, bênçãos que se atualizam e se tornam nossas pela fé. Na repetição dos ritos religiosos, de modo especial, os ritos da Semana Santa e seu cume na Páscoa, a graça de Deus vai martelando nosso consciente e despertando nosso inconsciente de modo a nos fazer reviver vivências e sentimentos tão gratificantes.

O rito, portanto, não deve ser uma experiência cansativa – como alguns dizem, mas deve agir em nós como as repetidas, mas benéficas expressões de estima e carinho que pessoas queridas nos transmitem: “Bom dia, me desculpe, obrigado, eu te amo…”. É repetitivo? Sim, mas também é gerador de vida. Também o rito da alimentação diária e dos hábitos de higiene, se bem administrados, jamais nos cansarão, ao contrário, nos estimularão a aprimorá-los, visto que nos fazem tão bem. Ritos devem organizar pra melhor a nossa vida e não nos engessar, ritos devem nos fazer transcender o cotidiano, nos lançar para Deus.

Que haja nesta sua Páscoa a reconciliação entre o rito interior da liturgia com o rito exterior das festas familiares e sociais. Que eles se reaproximem. Que o coração da liturgia, a vida doada de Cristo em favor dos outros, seja o motor que movimente suas ações e festividades, levando-o a superação do apelo da sociedade consumista; que os presentes, as viagens e extravagâncias ao redor da mesa não destruam o sentido da novidade pascal que desfrutamos em Cristo.

A Páscoa nos dá acesso ao shalom, a uma qualidade indescritível de vida. Israel, fiel à promessa, lutou para ser livre do Egito e tomar posse de sua terra e, nela, desfrutar o shalom. E nós, o que buscamos nesta Páscoa? Do que temos de ser livres? O que temos de deixar para trás? Que “terra” tem o Senhor para nós? Qual é o shalom que você precisa hoje? O que pode te fazer a Páscoa?

Não é a busca pelo retardamento de nossa velhice, a entrega insaciável aos prazeres, ao conforto e ao bem-estar, que nos garantirá vida verdadeira. Não são as coisas efêmeras da existência que nos trarão libertação, mas o sacrifício de Jesus e sua consequente vitória pascal. Nele já provamos o que não passa nem se pode perder. Nele não tememos carência de coisa alguma. Podemos sim desfrutar das coisas, mas sem sermos possuídos por elas. Nele não importa o quanto viveremos, mas que tipo de vida anima nosso ser; Nele temos esperança da vida além do túmulo, pois Ele é a ressurreição e a vida! Feliz Páscoa.

Pe. Augusto César
Pároco

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