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Mensagem do pároco › 04/11/2014

“Ressurgiremos”

1Um importante teólogo do século XX afirmou: “A morte é uma realidade que toca todo homem”. De fato, ela não faz concessões a quem quer que seja.
Do menor ao maior, do pobre ao rico, independentemente da faixa etária ou grau de instrução, todos morreremos um dia. Essa é a certeza que trazemos dentro de nós.

A morte não é inimiga da vida e sim parte desta, ou seja, é uma das estações ou paradas obrigatórias do fascinante itinerário da vida que de Deus veio e para Deus tornará. Inimigo da vida é o ódio, que provoca mais estragos na história de alguém do que tristes perdas como as mortes de uma mãe ou de um filho único. Não adianta, portanto, buscar razões para tentar superar a morte ou brigar com ela. Sinos, sepulcros e cemitérios já não mexem tanto com a vida das pessoas como antes. Nosso tempo risca a morte do cotidiano (não é elegante falar disso!), levando-nos a esquecê-la, ou, então, banaliza-a de tal modo que perdemos a reverência diante daqueles que partem. Desterraram a ideia da morte e da eternidade junto de Deus. Afastamos os cemitérios dos bairros, não temos mais velórios em casa, não se prega mais dela nos púlpitos. Porém, ela continua sendo uma sentença de ruptura que mexe profundamente com nossos relacionamentos. É do interesse de todos os homens o tema da morte. A Bíblia, já em suas primeiras páginas, trata dela como consequência do pecado. Todo o AT aborda a morte como punição de uma vida longe de Deus e vê nos sacrifícios animais (= morte) o mecanismo para o povo expiar seus pecados. O NT tem na paixão e morte de Cristo, bem como em sua ressurreição, seu eixo central, a razão de sua esperança. É o escândalo da morte de um Deus apaixonado que livremente Se entrega que nos fascina e atrai ainda hoje para o seguimento da proposta evangélica.

É na obediência ao Vencedor da morte que trilhamos o caminho de esperança, que se fundamenta na fé de que um dia também nós venceremos a morte. É do cristianismo a visão positiva acerca da morte, como vemos em São Francisco de Assis: “Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã a morte
corporal, da qual nenhum homem vivente pode escapar: ai daqueles que morrerem em pecados mortais; felizes os que ela encontrar na tua santíssima vontade…”.

A sabedoria do AT nos convida a aprender a contar os nossos dias a fim de que sejamos sábios (cf. Sl 90,12), reconhece que no ciclo da vida há um tempo para cada coisa, inclusive para morrer (cf. Ecle 3.2.20) e fala do amargor da lembrança da morte para quem vivia em paz entre seus bens (cf. Eclo 41,1). Choramos a morte de entes queridos porque assim, de certo modo, experimentamos nossa própria morte, nós a provamos.
Todas as culturas, todas as épocas enfrentaram a morte como um enigma sem solução.

Mas em Cristo temos mais do que uma reflexão sábia sobre o sentido da morte. O centro de nossa fé é a morte na cruz de Um que o fez por todos. A morte Dele e a partir Dele é Páscoa, é passagem. Sim, a morte avançou ferozmente sobre o Crucificado, agarrou-se a Ele, devorou-O, mas não conseguiu digeri-Lo, porque Nele estava Deus, e assim ela acabou morrendo. Cristo matou a morte em seu corpo, em sua humanidade.
Pela fé enxergamos a morte com essa incrível novidade: não nascemos para morrer, não, há algo mais da parte de Deus para nós (cf. 1Cor 15,55). Nascemos para viver eternamente!

A morte, assim, não é mais uma muralha intransponível, mas uma porta de acesso, uma passagem para Deus. O cemitério não é o fim da linha, mas o Mar Vermelho, graças ao qual podemos passar para a “terra prometida”. A morte não pode nos separar do amor de Cristo, dizia São Paulo (Rm 8,38). Não pertencemos à morte, pertencemos ao Autor da vida! Por isso, exclamava Santa Teresinha: “Não morro, entro na vida”.

Concluo dizendo neste mês em que toda a Igreja faz memória dos fiéis defuntos que a morte não pode ser para nós apenas uma pedagoga que nos ensina a viver, pois em Cristo ela é uma mistagoga, isto é, uma via de acesso ao coração do mistério cristão, que maravilhosamente se resume neste versículo: “Eu sou a ressurreição e a vida.

Quem crê em mim, ainda que tenha morrido, viverá” (Jo 11,25). “Uma tumba é pequena demais para conter o meu amor. Ressurgirei.” (Valentino Salvoldi)

Pe. Augusto César – Pároco

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