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Mensagem do pároco › 29/05/2017

“Unidade, um dom do Espírito Santo”

Iniciamos o mês com a belíssima e importantíssima solenidade de Pentecostes, que conclui, coroando, o maravilhoso Tempo Pascal. As leituras desta liturgia são em primeiro lugar o clássico texto de At 2,1-11; na resposta temos o Salmo 103, que pede ao Senhor que renove a face da terra, seguido da leitura de 1Cor 12,3b-7.12-13, que ressalta a unidade da Igreja como a grande obra do Espírito Santo.

Em Pentecostes se deu o derramamento do Espírito Santo sobre a Igreja. Diz o texto sagrado que Sua presença encheu a casa onde estavam reunidos e cada um ficou cheio de Sua unção, que se repartiu sobre cada um deles umas como línguas de fogo. O fato é que, embora os discípulos estivessem ali em obediência ao Ressuscitado, que pediu que aguardassem o cumprimento da promessa do Pai, a comunidade em si não estava 100%. Com a morte do Senhor muitos desanimaram, quiseram voltar à velha vida e voltaram para casa. Com Suas aparições aqui e acolá o Senhor foi reinflamando a fé nos corações, mas ainda faltava algo para que Sua obra não se perdesse; eles precisavam receber o Espírito Santo em plenitude.

Quando, enfim, chegou Pentecostes, algo novo aconteceu. O fogo do Espírito purificou as motivações de cada discípulo, o vazio interior foi preenchido com a unção celestial e o amor – antes fraco e inexpressivo – foi avivado naqueles corações. Dali levantou-se, por exemplo, um novo São Pedro (cf. At 2,14s), corajoso, que sem medo se levantou para dar razões de sua fé, de modo que não se podia crer que há poucas semanas esse mesmo homem, por covardia, havia negado o Salvador.

Após Pentecostes caiu o individualismo, nasceu a comunhão, e eles passaram a dividir sua vida e até seus bens uns com os outros; a comunidade renasceu, floriu, brotou concórdia, unidade de visão e de linguagem, ímpeto para evangelizar outros, etc (cf. At 2,42-27).

A Igreja sempre viu em Pentecostes o contrário da torre de Babel (cf. Gn 11). Em Babel, os homens se uniram em torno de uma causa egoísta e interesseira: perpetuar seu nome para gloriar-se nas gerações vindouras. Por isso Deus desaprovou tal obra e semeou entre eles a confusão, de modo que não mais se entendiam. Em Pentecostes, não, a iniciativa não veio dos homens, mas do próprio Deus, que fez questão de reunir a comunidade ferida pela tragédia da cruz e purificou a todos e a cada um com o Seu fogo santo, mudando sua mentalidade e dando-lhes uma nova linguagem, a linguagem do amor.

Celebrar Pentecostes é celebrar o dom de ser Igreja, de ser uma família em Cristo, de ser um só corpo. Em Babel os homens queriam fama e glória, em Pentecostes o próprio Deus rebaixou o individualismo e acabou com a divisão interna.

Unir o Pai ao Filho e Este ao Pai é a grande obra do Espírito Santo na Trindade. Na Igreja igualmente Ele trabalha na unidade; Ele é “a alma da Igreja” e “a graça benfazeja que nos irmana no Senhor”, como cantamos. O Espírito Santo é o Amor que une todas as coisas e destrói a confusão, a divisão, a discórdia.

Com esta reflexão, quero agora entrar em um tema muito prático, conhecido de muitos, e que tem sido causa de desconfianças, falatórios, enfim, a maldita divisão. Refiro-me à derrubada de duas árvores da frente da igreja. Desconhecendo a verdade dos fatos, certas pessoas me atribuíram a responsabilidade, quando foi a própria prefeitura que realizou esse ato, amparada por um laudo técnico, que tive já a oportunidade de postar nas redes sociais, mostrando a prova àqueles a quem isso interessa.

Aproveitando-me do ocorrido, reflito com vocês sobre a importância de ponderarmos sobre tudo o que ouvimos e tudo o que dizemos, seja em nosso ambiente de trabalho, vizinhança ou família. É preciso ter um senso crítico, real interesse pela verdade e não cair facilmente em qualquer posicionamento, manipulação de fatos, enfim. É certo que tudo chega com facilidade a nós e “corre” por aí com uma incrível velocidade, sobretudo no meio virtual, nas redes sociais, que acessamos a toda hora na palma de nossas mãos. Mas, essa velocidade não pode roubar-nos de nós mesmos e nos fazer agir irrefletidamente, sem discernimento, pois, dando crédito a qualquer coisa, podemos, na verdade, decretar a destruição da reputação de uma ou várias pessoas, dividindo amigos, vizinhos e até uma comunidade cristã. Só que a divisão não é obra divina; vem das trevas, é Babel, ou seja, é uma confusão que tem por trás motivações destrutivas.

Saiamos, portanto, das coisas inúteis, que não trazem proveito, deixemos de ser juízes implacáveis dos outros, deixando que o Espírito Santo nos dê critérios para julgarmos primeiramente a nós mesmos. E, para concluir esta reflexão, compartilho a conhecida historinha da filosofia, as “três peneiras”: um rapaz procurou Sócrates e disse-lhe que precisava contar-lhe algo sobre alguém. Sócrates ergueu os olhos do livro que estava lendo e perguntou: “O que você vai me contar já passou pelas três peneiras?”. “Três peneiras?”, indagou o rapaz. “Sim! A primeira peneira é a VERDADE. O que você quer me contar dos outros é um fato? Caso tenha ouvido falar, a coisa deve morrer aqui mesmo. Suponhamos que seja verdade. Deve, então, passar pela segunda peneira: a BONDADE. O que você vai contar é uma coisa boa? Ajuda a construir ou destruir o caminho, a fama do próximo? Se o que você quer contar é verdade e é coisa boa, deverá passar ainda pela terceira peneira: a NECESSIDADE. Convém contar? Resolve alguma coisa? Ajuda a comunidade?”, e arremata Sócrates: “Se passou pelas três peneiras, conte! Tanto eu, como você e seu irmão iremos nos beneficiar. Caso contrário, esqueça e enterre tudo. Será uma fofoca a menos para envenenar o ambiente e fomentar a discórdia entre irmãos”.

Pe. Augusto César
Pároco

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